Acabaram-se os débitos em conta

A internet é paga no posto dos correios, enquanto esperamos que a senhora que está sentada na outra ponta do balcão vá ao armazém ver se a nossa encomenda já chegou. A conta do telefone vem ao mesmo tempo que a da internet, e assim ficam despachadas duas contas logo de uma vez. A seguir é a vez de ir à vizinha dar-lhe o dinheiro da renda e esperar que ela assine uma factura do mercado, a atestar que nós pagámos. Às vezes quando vamos ao mercado, não temos moedas suficientes mas um “já cá volto daqui a pouco” é tudo o que eles precisam para nos deixar ir com um sorriso. Ainda no mesmo dia é certo que alguém lá vai e a dívida fica saldada.

Depois há outros dias em que o gás acaba e saímos de casa para ir buscar outra garrafa de 12kilos, que durará mais uns meses. Há vezes em que temos sorte e um amigo aparece à hora certa, para nos levar de carro. Outras, o caminho é feito a pé com a garrafa nas mãos, enquanto o pescoço não fica treinado para a equilibrar.

Quando chega o fim de semana é altura de varrer a casa. Lenço na boca, quando o pó é muito, e vassoura na mão, para limpar uma casa que tem 7 assoalhadas. Quando falta a água, os banhos são tomados de garrafão em punho e aí somos esbofeteados com a realidade relativamente à quantidade de água que se gasta num simples “duche rápido”.

Os telefonemas a anunciar visitas não existem, nem se combina nunca nada. As pessoas aparecem, vão aparecendo, vamos indo, esperando que alguém lá esteja para não batermos com o nariz na porta. Não se combinam horas, não se combinam locais, dá-se apenas uma ideia aproximada do que se quer fazer, e quem quer aparece. Às vezes mesmo não havendo nenhum plano, quem quer aparece e quase sempre é bem vindo.

O pão é comprado fresco de manhã e a fruta no mercado, ou à porta de casa nas vendedoras ambulantes. De cestas na cabeça e moedas no avental, estão sempre prontas para um “bom dia, compra banana?”. O peixe é arranjado cá em casa, meio às apalpadelas, e os legumes são comprados frescos e só depois cozinhados durante uma ou duas horas, até ficarem no ponto em que encontramos os enlatados.

Água quente nunca houve, mas também nunca foi necessária. O duche frio é tudo o que um corpo cansado quer ao fim de um dia de trabalho e o calor exterior é suficiente para nunca ficarmos com frio dentro da banheira. Os gafanhotos, mais que as baratas, tornaram-se um pão nosso de cada dia e as sensibilidades a tais criaturas vão diminuindo de dia para dia, até chegar ao ponto em que pegamos neles e os mandamos janela fora, para tal como nós, continuarem a sua vidinha.

A vida aqui é paradoxal à minha realidade passada, mas é uma realidade à qual me adaptei. Agora estou curiosa para ver como me adapto à anterior realidade, na minha anterior cidade…

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