Na cidade é mais fácil…

…há mais para ver, é certo. Há muito mais para distrair, também. A cabeça anda sempre ocupada, com mil coisas para fazer. São dezenas de coisas que se vão acumulando numa listinha; uma lista que por mais que vá sendo riscada, tem sempre mais alguma linha a preenchê-la. Nunca nada está acabado. Nunca nada chegou ao fim. Há sempre algo por tratar, alguma coisa por fazer. “Então e não é bom? Não era isso que querias?”. Sim, quero dizer, achava que sim. É bom, sim; gosto de estar ocupada. Bom, e daí, os sentimentos de impotência, de incapacidade, de obstáculos no caminho, são tão grandes ou maiores do que os do passado. “Bom, mas ao menos concentras-te no presente e esqueces o passado!” Sim, quero dizer, acho que sim. Concentro-me no presente sim. Esqueço o passado, sim; ou melhor… não penso nele. Será o mesmo que esquecer? Duvido…
Antes, revoltava-me com o deixa andar de aldeia; aqui irrita-me a incapacidade dos citadinos. Antes, frustravam-me as dificuldades de acesso às coisas; aqui há demais, nunca nada é suficiente. Lá tentava que aspirassem a mais, aqui esforço-me por mostrar que menos é suficiente. O que aqui é um drama que tem de ser resolvido na hora, lá era um obstáculo que poderia ser passado em um, dois, ou três dias, quando não chegava a ser uma ou duas semanas. E é isso que mais me frustra cá. A mentalidade citadina, de quem tem tudo mas ainda quer mais, que não sabe o bem que sabe uma noite sem luz ou um dia sem água, uma noite igual a tantas outras, no bar do costume. Porque aqui nunca se valoriza o que se tem, o que está próximo, o que é importante.
E se nos outros isso já me irrita, quando me começa a afectar também a mim, quando começa a mudar aquilo em que me tornei no ano passado, aí transtorna-me ainda mais. Porque adorei quem fui no ano passado. Porque mal ou bem tinha sempre paz à minha volta. E aqui não tenho. Nem interior, nem exterior. E isso é que me altera profundamente o estado de espírito com que encaro esta etapa.

Uma resposta para “Na cidade é mais fácil…”

  1. Eleanor Roosevelt disse “Ninguém te poderá fazer infeliz sem o teu próprio consentimento”. De igual modo, podes recusar a pressão da cidade e encontrar a paz nas pequenas coisas do dia a dia.
    Beijinhos

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